Troye Sivan está na nova edição da revista britânica Dazed, que além de contar com um photoshoot exclusivo feito por Pierre-Ange Carlotti, também traz um artigo redigido por Alex Frank, com ótimo conteúdo abordando a vida pessoal e profissional de Troye, que você pode conferir traduzido abaixo:

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Troye Sivan é tão encantador que sua pele já é suficiente para te fazer desmaiar. “Ela é linda”, diz uma esteticista radiante, esfregando um gel frio que tem cheiro e parece com iogurte de morango em suas bochechas pálidas.
É uma quinta-feira quente de inverno em Los Angeles, e o cantor australiano e eu estamos jogados em um par de cadeiras num ‘bar facial’, reclinados para baixo, com nossas caras apontando para o chão. Suas pernas magrelas e botas de motoqueiro da Saint Laurent estão levantadas no ar, e seu cabelo platinado está preso para trás por uma tiara de elástico. Enquanto os vaporizadores lançam uma névoa suave em nossos narizes e toxinas são extraídas de nossos poros, eu descubro que Sivan usa Cetaphil para deixar sua pele hidratada e livre de acne, seu sorvete favorito é o de baunilha, e a doce juventude de sua aparência não é apenas superficial. O jovem de 22 anos não consegue ter uma barba porque ela fica com falhas. “Eu ficaria parecendo com um rato,” diz ele com uma risada autodepreciada.

Estes são pequenos fatos engraçados que podem ter agradado uma fã adolescente lendo sobre seu ídolo favorito nas páginas da Seventeen durante os dias do programa American Bandstand dos anos 1950, e Sivan tem um pouco dessa saúde, charme de pin up de estrelas teen de antigamente como Sandra Dee e Bobby Darin. Mas quando terminamos nosso tratamento no spa e andamos pela ensolarada Ventura Boulevard, fica claro que Sivan é tão moderno como uma celebridade pode ser, sua carreira – a qual, com um novo álbum e filme a caminho, pode alcançar alturas ainda mais vertiginosas em 2018 – é apenas possível na era estranha e selvagem da internet. Primeiro, Sivan é gay, um fato que ele não escondeu do público, pelo contrário, isso ficou claro em suas músicas, nas quais Sivan não tem vergonha de usar o pronome “ele” para o objeto de sua afetividade. Tab Hunter, Johnny Mathis e até mesmo George Michael, que ficaram no armário em seus auges em eras conservadoras, nunca tiveram a mesma oportunidade. “Uma pessoa me perguntou uma vez se eu usei minha saída do armário como uma jogada de marketing”, diz ele. “É legal que vivemos em um tempo em que ser gay pode ser visto como uma ajuda em sua carreira.”

Segundo, antes de assinar com a EMI em seu aniversário de 18 anos (posteriormente Capitol), Sivan encontrou sozinho sua fama no YouTube. Ele atuava em peças de teatro em sua cidade natal, Perth, desde aproximadamente 2007 e, em busca de uma carreira cinematográfica, estreou com um papel como o Wolverine jovem em X-Men Origens: Wolverine, de 2009. Mas foram os covers de música pop que ele começou a postar no YouTube a partir dos 12 anos que o ajudou a construir um público internacional. “Eu achava que me tornaria um cantor de jazz, então eu cantava músicas, tipo, de Michael Bublé,” diz ele.

Em 2012, Sivan levou as coisas um passo mais fundo e começou a criar vídeos engraçados, de cara para a câmera, sobre sua vida com títulos tipo “COMO FAZER AMIGOS” e “QUAL É A SUA MÚSICA DE SEXO?” O canal de Troye Sivan ganhava rotineiramente milhões de visualizações, e um envio de 2013 que oficialmente serviu como sua saída do armário tem agora mais de sete milhões de execuções. Ele é o tipo de famoso que faz com que seja parado repetidamente por fãs em busca de selfies – incluindo hoje, duas garotas com aparelhos dentários em uma sorveteria (Sivan escolheu mel de lavanda roxa em vez de baunilha). A dupla usou o FaceTime para ligar para uma amiga porque ela era “sua maior fã!” “Talvez eu seja como um irmão para elas,” ele fala sobre as garotas que piram por causa dele. “Nunca passei muito tempo pensando sobre o que as outras pessoas queriam de mim, então perguntei a mim mesmo o que eu gostaria de ver de alguém na internet. O que basicamente é, tipo, uma pessoa real.”

Em 2018, Sivan capitalizará através de diferentes lados de seu talento. Primeiramente, na primavera (outono, no Brasil), ele tem um novo álbum, seu segundo depois do bem recebido Blue Neighbourhood de 2015. O lançamento conta com ele trabalhando com alguns de seus heróis produtores, incluindo Ariel Rechtshaid, que ajudou a tornar Sky Ferreira, Haim e Vampire Weekend em estrelas indies. Troye evoluiu para um som limpo, aerodinâmico que remete aos dias de synth-pop dos anos 1980, mas com refrãos poderosos mais em níveis com mega produtores da atualidade como Max Martin (com cujos afiliados ele trabalhou em algumas músicas na Suécia). Depois, no outono (primavera, no Brasil), Sivan tem um papel em um filme de Joel Edgerton, Boy Erased, que conta a história de um garoto forçado a participar de um programa de terapia de conversão de sexualidade, um tema que está nos jornais ultimamente devido à crença do vice-presidente dos EUA, Mike Pence, na cura gay. O elenco de estrelas do filme inclui Lucas Hedges, Nicole Kidman e Russel Crowe. “Troye é muito talentoso,” diz Kidman sobre seu co-protagonista. “Foi ótimo vê-lo se perder tanto em seu personagem. Keith (Urban) e eu somos grandes fãs dele – eu não quis falar isso para ele nas gravações.”

Grandes coisas também estão acontecendo na vida pessoal de Sivan. Ele acabou de comprar sua casa (nas colinas) e seu primeiro carro (um Tesla SUV em preto brilhante), e ele está extremamente, loucamente apaixonado. “Nós somos melhores amigos antes de tudo,” ele fala sobre seu namorado, o modelo Jacob Bixenman, quem ele conheceu em um desfile da Saint Laurent em LA. “Eu o segui no Instagram, e fui até ele no desfile. Nós temos um relacionamento muito saudável e amoroso.” O casal está namorando há quase dois anos, e fãs com olhos de águia já devem ter os flagrados em fotos de festas com amigos, incluindo a atriz Hari Nef, o ativista Adam Eli-Werner, e o ator e comediante Freckle. Ainda assim, Sivan se mantém discreto e bem-comportado. “Eu já fumei maconha e odiei pra caralho – completos ataques de pânico toda vez. Eu sou o tipo de pessoa que fica ansiosa quando toma remédio para dormir sem prescrição médica. Eu apenas sinto uma vontade de ser bom.”

Mesmo um perigo de aniquilação não consegue atingir Sivan – poucos dias antes de nos encontrarmos, Donald Trump havia disparado um tweet comparando o tamanho de seu botão nuclear com o do ditador norte-coreano Kim Jong-un, particularmente preocupante para aqueles que, como Sivan, vivem na costa oeste dos EUA. “Há algumas coisas assustadoras acontecendo,” diz ele. “Já passamos por coisas ruins no passado e passaremos por coisas ruins no futuro, mas acho que nós conseguimos sobreviver a isso. Agora é um tempo de nos unirmos e ajudar uns aos outros.”

A vida de Sivan com Bixenman é simples em seus prazeres e felizmente doméstica, além de umas festas aqui e ali (a virada do ano foi em Palm Springs, e, quando estão em Nova York, amam as famosas festas da Ladyfag). “As coisas que me animam é ficar em casa e cozinhar. Ter alguém para encontrar ao chegar em casa no final do dia… Eu nunca tive isso! Eu não vejo nenhuma diferença entre meu relacionamento com Jacob e o relacionamento de minha irmã (com seu parceiro). Isso me faz a pessoa mais feliz do mundo, porque ela é hétero e meus pais aceitam e amam nossos companheiros da mesma maneira,” ele diz. “É como se fosse, tipo, um pedacinho do céu.”

Sivan nasceu na África do Sul, de uma mãe que era modelo e um pai encanador, cuja avó Judeia fugiu da Europa ocidental. Seus pais se mudaram com a família para a Austrália quando ele tinha dois anos, após os níveis de violência terem aumentado em Johanesburgo. Eles se estabeleceram em Perth, onde Sivan aproveitou uma infância que ele descreve como de classe média-alta. “Suburbana,” ele diz. “Muito, muito suburbana.” Como a maioria das estrelas mirins, ele era precoce, passando horas em seu quarto cantando músicas de Madonna no espelho. Mas Sivan também era fundamentado em jantas de Shabbat (ele ainda não come carne de porco) e em uma família (ele tem dois irmãos e uma irmã) que o acolheu por quem ele era. Ele fez suas primeiras apresentações públicas como cantor em cerimônias de Yom Kippur. “Meus pais criaram um bom ambiente para nós,” ele diz. “Eles sempre foram encorajadores com tudo.”

Na época em que ele começou a postar os vídeos que o tornariam famoso, Sivan começou a explorar sua sexualidade e sua crescente fama fez disso uma oferta enganosa. “Eu costumava jogar no Google ‘Troye Sivan gay’ porque estava paranoico em ser revelado, e de que alguém tivesse de fato adivinhado e estava expondo isso,” ele diz. “Sem os meus pais saberem, eu usei o Grindr infelizmente em uma idade jovem. Era completamente ilegal. Eu nunca fiquei com alguém, porque era um garoto gentil no Grindr tentando encontrar amor. Eu conheci um cara por quem fiquei obcecado. Mas descobri que ele era super afim de drogas, ficou perigoso, e meus pais não sabiam.” Ele decidiu que, se fosse para viver a vida do jeito que queria, teria que contar aos seus pais – e depois ao mundo. Ele contou primeiro ao seu pai, e depois seu pai contou a sua mãe. “Ele ficou em silêncio e começou a chorar. Eu disse, ‘Você ainda me ama?’ Ele disse que sim e me abraçou.”

Sivan tem um senso de dever por ser LGBTQ não apenas pela realização de que ele tem uma grande plataforma (com 7,6 milhões de seguidores no Instagram, mais do que Sky Ferreira, Charli XCX e Tyler, the Creator juntos), mas também um senso do privilégio que ele desfruta como um homem branco, rico, aceito e cis. “Eu realmente só quero ajudar os outros. Eu sou tão absurdamente sortudo que seria nojento se não reconhecesse isso,” ele diz, adicionando que esta percepção fundamentou seu papel em Boy Erased. “Em muitos estados, isso ainda é legal,” ele fala sobre os retiros de conversão retratados no filme, que impõem regras rígidas na casa para os residentes, incluindo nenhum contato físico entre os garotos “exceto por um rápido aperto de mãos”. “Acho que a coisa mais assustadora é que no set de gravação eles tinham os materiais de leitura verdadeiros. Só de ver os atores meio que passando por aquilo era suficiente. Fiquei aliviado quando terminei de gravar.” Sivan ainda não pode revelar muito sobre seu personagem, mas o diretor Joel Edgerton diz que ele se encaixou perfeitamente. “Como pessoa, Troye realmente chama sua atenção. Ele tem uma qualidade misteriosa e celestial,” ele diz. “A experiência pessoal de Troye foi completamente diferente, mas ele estava dedicado com a ideia de Boy Erased. É louco pensar que, em 2018, ainda estamos em um lugar onde muitos artistas sentem que não há motivos para serem abertos a respeito de sua sexualidade. Eu amo o fato de Troye não ter cedido a este medo. Sua confiança preenche os outros com confiança.”

A música de Sivan também é profunda no assunto da sexualidade, ainda que de um jeito mais sutil e modesto. Cantando músicas de amor para garotos assim como qualquer outro artista pop faria, mais tipicamente para o sexo oposto, ele oferece uma contestação contra a pegada heterossexual na música. “Ele é uma figura importante,” diz o produtor Rechtshaid. “Mesmo que você tenha idolatrado George Michael, no ponto mais alto de sua carreira ele ainda estava no armário. Troye é um dos poucos usando sua plataforma para o bem da humanidade. O amor como uma emoção é muito potente; há uma razão pela qual as pessoas cantam sobre isso. Mas as músicas de Troye são cantadas de uma perspectiva que tem sido largamente ignorada – ou escondida. Eu me sinto orgulhoso de fazer parte disso.”

Sivan diz que foi influenciado por This Mortal Coil e The Replacements para criar uma atmosfera romântica e nostálgica dos anos 1980. O primeiro single, “My My My!”, é auto descrita como “explosão de felicidade” inspirada pelas noites em festas gay de Nova York. O clipe da música, dirigido por Grant Singer e criativamente dirigido por Patrik Sandberg, mostra-o elegante em preto e branco, dançando em um galpão, com imagens de garotos sem camisa misturadas ao longo do clipe. Como um verdadeiro símbolo sexual, sua própria camisa é soprada dramaticamente por ventiladores. Ele também tem uma música chamada “Bloom”, na qual ele toma o papel do que parece ser o parceiro receptivo perdendo sua virgindade. “É verdade, amor… Eu tenho guardado isso para você… Me prometa que segurará minha mão se eu ficar assustado agora… Talvez eu peça para você esperar um segundo, amor, vá devagar… Você deveria saber que eu me desabrocho, me desabrocho apenas para você.” Em outras palavras, “Bloom” é um hino gay para passivos, e quando eu pergunto a Sivan se a música é sobre isso, ele se faz de desentendido, mas praticamente revela a resposta. “É 100% sobre flores! É só disso que é,” ele diz com um piscar.
“Chame do que quiser chamar. Quero cantar essa música em toda parada LGBT.” De muitas maneiras, Sivan não precisa dizer nada: sua própria presença é o poder. “Há quase que um radicalismo com a verdade, sabe? A coisa mais radical que posso fazer é contar o quão feliz estou.”

Troye Sivan pode muito bem ser o primeiro garoto gay feliz dessa geração do pop. Isso não quer dizer que ele não tem consciência do lado escuro da vida, e também não é um esquecimento dos muitos artistas gays que vieram antes de Sivan. É que, aos 22 anos, ele representa um novo paradigma: assumido e sincero desde o começo de sua carreira, aberto sobre seus relacionamentos, alternadamente obcecado e de coração partido, mas da maneira que todo mundo no planeta é, hiper consciente das enfermidades do mundo, mas também vivendo sua vida, e ainda um objeto de afeição e desejo por adolescentes ao redor do globo. Imagine ele como uma versão da vida real de Elio, do filme de Luca Guadagnino, Call Me By Your Name, que foca na paixão cor de rosa que um garoto adolescente (interpretado pelo sedutor Timotheé Chalamet) sente por um estudante mais velho.

Sivan ainda não tinha visto o filme quando nos falamos, mas havia lido recentemente a novela que o inspirou e diz que se identificou muito proximamente com o sentimento de liberdade e primeiro amor. O cenário dos anos 1980 também reflete o novo álbum retrô de Sivan, embora ele diga que é uma coincidência. “Eu acho que antes eu precisava me explicar muito – se você vai falar sobre ser gay, tem que falar sobre a saída do armário e as dificuldades,” ele diz. “Claro, ser gay vem com batalhas, mas não é só isso que há nessa comunidade. Eu conheci tantas pessoas que saíram do armário despreocupadas do outro lado, mesmo em face da adversidade. Minha vida é sexy, divertida, gay e sem remorsos. Dessa vez eu vou com tudo.”

Ao final de nosso tempo juntos, com um par de margaritas verdes espumantes em um restaurante mexicano em Ventura, eu sinto um senso de esperança na presença de Sivan. Em toda sua felicidade instintiva, ele parece incorporar um mundo que ainda as vezes muda para melhor. “Estou preocupado em me certificar que eu dê uma desacelerada suficiente para aproveitar tudo,” ele diz, parecendo-se como um cantor new-wave no brilho neon de LA.
“O problema em tudo estar tão bom quanto de fato está, é que as vezes fico esperando por algo quebrar. Com certeza em algum ponto algo tem que dar errado.” Ou talvez não.

O novo álbum de Troye Sivan sai na primavera [outono brasileiro].

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Confira também algumas fotos do photoshoot, ainda em baixa qualidade: